Nao é estatística: é vida real.
Aqui, basta sair à rua, nota-se logo que há muito mais deficientes motores do que em Portugal. Veem-se também bastantes idosos que se deslocam sobre rodas, em veículos mais ou menos electrosofisticados.
A explicaçao para isto, receio bem, nao é a excelencia do gene lusitano, nem a complacencia dos médicos ingleses com falsas incapacidades e reformas antecipadouradas.
A explicaçao para isto, estou convencido, é que aqui essas pessoas tem condiçoes para sair de casa: passeios nivelados, lancis rebaixados, estacionamento regrado, elevadores funcionais, espaço extra para manobrar. Condiçoes até demais?
Manchester, nesse aspecto, é um caso extremo. Nao satisfeita com a legislaçao nacional, a Camara aprovou um regulamento municipal, elaborado por uma comissao de arquitectos peritos e de representantes de todas as associaçoes de deficientes, que se aplica a qualquer edifício público e/ou publicamente financiado.
Só uns exemplos, à laia de curiosidade: uma rampa nao pode ter mais de 5% de inclinaçao, precisa de corrimao de ambos os lados e de patamares horizontais a cada dez metros (os ingleses tem obviamente menos força de braços do que nós, apesar de todo o críquete que jogam em miúdos); qualquer corredor tem que ter, no mínimo, 1.80m de largura (nao é para uma cadeira de rodas passar, nem sequer para uma cadeira de rodas girar... é para duas cadeiras de rodas se cruzarem à vontade); a cor das portas tem que contrastar com a das paredes (parece que há pessoas, nao cegas, mas quase, que nao se orientam se tudo à volta for demasiado homogéneo).
Os arquitectos (vejam só, logo quem!) gostam de protestar contra estas ditaduras das minorias, e eu julgo que muitas vezes até com alguma razao. Afinal, é triste ver um átrio de entrada de um edifício, ou a sua escada principal, transformados em autenticas camaras de tortura. Mas valerá a pena? Nao sei.
Nao sei, mesmo! Ontem de manha, na movimentadíssima zona de Piccadily, cruzei-me com uma mulher cega numa cadeira de rodas. Fiquei pasmado, a ve-la subir a rua, agitando a bengala com uma mao e comandando a cadeira com a outra. Sozinha, sem ajuda. Atravessou a estrada e seguiu, na direcçao da estaçao de comboios. E isso foi, pelo menos, tao emocionante como o Partenon.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Deixei-me ficar
Deixei-me ficar. Nao diria exactamente a dormir à sombra da bananeira (até porque, agora que o escrevo, já nao estou tao certo do que isso significa), mas bastante satisfeito com o meu último post.
Confiando que o mundo é pequeno e que a blogoesfera o diminui (mas afinal parece que é ao contrário), acreditando que estou apenas a seis pessoas que se conhecem de qualquer pessoa que nao conheço, achei até muito provável que aqui aparecesse na caixa um comentário do ALA, ou do próprio ASV. Vai-se a ver, nada.
Mas nao desanimei. Só que, entretanto, tenho estado a escrever uma segunda história da Margot (é verdade, depois do estrondoso fracasso da primeira!), que me consumiu todo o tempo extra. Agora que acabei, corri para aqui, mas só para avisar que estou vivo. Há ainda um IRS para entregar (emigrámos, mas trouxemos as facturas da farmácia), e depois é que volto em força.
Confiando que o mundo é pequeno e que a blogoesfera o diminui (mas afinal parece que é ao contrário), acreditando que estou apenas a seis pessoas que se conhecem de qualquer pessoa que nao conheço, achei até muito provável que aqui aparecesse na caixa um comentário do ALA, ou do próprio ASV. Vai-se a ver, nada.
Mas nao desanimei. Só que, entretanto, tenho estado a escrever uma segunda história da Margot (é verdade, depois do estrondoso fracasso da primeira!), que me consumiu todo o tempo extra. Agora que acabei, corri para aqui, mas só para avisar que estou vivo. Há ainda um IRS para entregar (emigrámos, mas trouxemos as facturas da farmácia), e depois é que volto em força.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Saltei do sofá

Saltei do sofá, quando vi passar na televisao, por uns instantes muito breves, o pavilhao de portugal. Saltei do sofá é uma forma de expressao, para saltar do sofá era preciso estar sentado no sofá, ter-me sentado no sofá, e eu tenho a sensaçao de que ainda nao me sentei no sofá desde que viemos para aqui. Nao que nao tenhamos sofá, temos sofá, quer dizer a senhoria tem um sofá na sala da casa que lhe pertence, é um sofá verde desmaiado para combinar com a alcatifa beje parda, que estava atravessado na diagonal da sala quando chegámos e que foi a primeira coisa que mudámos, porque nos fazia espécie aquilo nao estar direito, entrar na sala e ve-lo assim de esguelha, ou sentarmo-nos nele, se nos sentássemos, que nao sentamos, e vermos a sala toda de esguelha, a olhar para nós. Se eu fosse o antónio lobo antunes escrevia mais ou menos assim, mas a casa era em benfica ou em paço de arcos, nao era aqui. Aqui, de repente passar ali na televisao o pavilhao de portugal é uma coisa assim insólita, daquelas que nos fazem saltar do sofá, e eu fiquei especado a olhar para lá, para a televisao, nao para o sofá, para tentar perceber o que se passava, se era uma campanha turística do governo ou se era uma reportagem sobre o siza derivado ao prémio que recebeu aqui em inglaterra, as imagens iam passando e eu já nem sei bem o que vi, aquilo que vi nao encaixava com o que eu estava à espera de ver, com o que eu queria ver, e por isso nao retive o que vi. Depois já quase no fim é que percebi que afinal aquilo era um anúncio, porque tinha qualidade de imagem e ritmo de anúncio, som nao sei se tinha, talvez nao tivesse som, o anúncio tinha com certeza, mas a televisao devia estar sem som, e lembro-me de pensar, olha foram filmar isto a lisboa, mas por que terá sido? ainda sem perceber o que era o anúncio, o que é que o anúncio anunciava, terá sido por causa do sol, terá sido por causa dos custos de produçao, achei que o pavilhao e a pala eram um cenário como outro qualquer, talvez a seguir aparecesse a torre de belém ou os jerónimos, a expo ou moscavide, moscavide nao, que disparate, mas eu ainda nao estava a perceber nada, ainda nao estava a perceber que a pala era a protagonista do anuncio, até que mesmo no fim ela voltou a aparecer, muito evidente como sempre mas ainda assim discreta lá ao fundo, tenho a certeza que aparecia alguém à frente, gente espontanea e sorridente, e letras que anunciavam o produto, que eu li sem ler, e só no anúncio seguinte é que percebi que tinha lido, só quando já nao podia voltar a ver é que percebi o que tinha visto, por que é que o foram filmar a lisboa, por que é que nao filmaram a torre de belém nem os jerónimos, mas filmaram duas vezes a pala, porque afinal aquilo era um anúncio de pantiliners.
terça-feira, 31 de março de 2009
terça-feira, 24 de março de 2009
Previsível
Graças à minha excelente memória e ao fabuloso sentido de orientaçao da Ana, em cada passeio de domingo descobrimos sempre meia Inglaterra.
Embora seja instrutivo, isso torna-se rapidamente bastante dispensioso. De modo que adiámos os planos de comprar um cao ou adoptar um pretinho e decidimos investir num GPS. «Faz o mesmo ruído, mas pode desligar-se!», disse a Ana. «No nosso carro, até vai ter dificuldade em fazer-se ouvir!», comentei eu. Rimos ambos. Parecia que estávamos de acordo, mas nao era bem assim.
Percebi-o logo que a Ana terminou o set up, e o aparelho começou a debitar as primeiras palavras... na sua voz feminina! Entendamo-nos: nao é que eu estranhe receber instruçoes nessa frequencia; é só que, atendendo à composiçao do nosso agregado familiar, achava mais natural que o GPS tivesse voz de homem.
Mas lá acabei por entender. Afinal, as meninas lá atrás só sabem fazer barulho, e eu cá à frente nao sei fazer conversa. A Ana precisava de companhia e de solidariedade feminina; precisava de uma boa amiga, como as de Portugal.
Na semana passada foram as duas sozinhas até Birmingham, e já se zangaram.
Embora seja instrutivo, isso torna-se rapidamente bastante dispensioso. De modo que adiámos os planos de comprar um cao ou adoptar um pretinho e decidimos investir num GPS. «Faz o mesmo ruído, mas pode desligar-se!», disse a Ana. «No nosso carro, até vai ter dificuldade em fazer-se ouvir!», comentei eu. Rimos ambos. Parecia que estávamos de acordo, mas nao era bem assim.
Percebi-o logo que a Ana terminou o set up, e o aparelho começou a debitar as primeiras palavras... na sua voz feminina! Entendamo-nos: nao é que eu estranhe receber instruçoes nessa frequencia; é só que, atendendo à composiçao do nosso agregado familiar, achava mais natural que o GPS tivesse voz de homem.
Mas lá acabei por entender. Afinal, as meninas lá atrás só sabem fazer barulho, e eu cá à frente nao sei fazer conversa. A Ana precisava de companhia e de solidariedade feminina; precisava de uma boa amiga, como as de Portugal.
Na semana passada foram as duas sozinhas até Birmingham, e já se zangaram.
sexta-feira, 20 de março de 2009
Dúvida de informática
Já agora: alguém me sabe explicar por que razao, quando googlo «youtube», surge logo em grande destaque um link para «Vai tomar no cu - original» (com a imagem de um tipo que parece o Robert Smith recauchutado)? Isto é só no meu computador? Nao seria coisa que se pudesse evitar? Dao-se alvíssaras.



