domingo, 18 de outubro de 2009

Que é isso, menina?

Tem lá coisa mais feia do que xingar quem gosta de voce?
Bota os olhos na Malú, vai?

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Era uma casa

Os ultimos dias foram passados a mudar de casa. Em todas as nossas mudanças de casa, com excepçao da penúltima, sempre tivemos o cuidado de mudar para perto, dispensando as companhias de mudanças, as carrinhas e os caixotes. Já nos habituámos a ensacar os nossos tarecos e a levá-los pelo braço, demasiado expostos à curiosidade alheia, em sucessivos passeios pela rua acima: foi assim da Infantaria 16 para a Sao Joao Nepomuceno, foi assim da Sao Joao Nepomuceno para a Silva Carvalho e foi assim agora, do número 75 para o número 79 da Hawksey Dr.

Claro que o recorde do BU, do 5º para o 7º andar, continua incólume: esse só será batido quando o próprio se mudar do direito para o esquerdo. Mas a nossa mudança, embora de curta distancia, foi de enorme importancia, porque mudámos do prédio para a moradia (aqui, famílias que se prezam moram numa moradia).

Ora, morar numa moradia é toda uma outra coisa. Percebemo-lo rapidamente, ainda durante esta semana em que estivemos com um pé em cada lado. Se, ao princípio, ainda nos referíamos à casa velha e à casa nova, depressa abandonámos essa designaçao e passámos a chamar-lhes aquilo que realmente sao: o apartamento e a casa. Claro que, antes, o apartamento era a nossa casa; e claro que na casa ainda nao nos sentíamos em casa, mas já era óbvio que a casa é que era casa: quatro paredes e um telhado, se me entendem.

Aqui, ainda estamos um pouco acampados. Em abono da verdade, deve dizer-se que é uma moradia geminada, e que nao é muito espaçosa. Para já, despejámos tudo o que falta arrumar para dentro do quarto extra. Agora nao dá para saber, mas a Ana jura a pés juntos que aquilo tem chao e, se isso se confirmar, um dia poderá receber visitas.

A garagem é outra das grandes vantagens; nao para o carro, que está muito bem na rua, mas para as bicicletas, trotinetas e afins. As meninas estao a adorar esta vida de entra e sai, da rua, para casa, para o jardim, para as traseiras, e volta-nao-volta entram por aqui adentro os colegas da escola ou os filhos dos vizinhos, que depois ficam para o tea.

Nao me perguntem pela arquitectura, que nao tem ponta por onde se lhe pegue. Mas eu, ferreiro, nunca estive tao satisfeito com nenhuma casa como com esta. Gosto de lavar a loiça ao nível da rua, de espreitar lá para fora a ver e a cumprimentar quem passa, através da janela em frente à bancada, por entre os caules dos cravos na jarra do peitoril. Gosto de ter um canteiro em frente à porta, uma garagem ao lado da casa, uma cerca, um relvado e um jardim de inverno nas traseiras. Gosto de sentir o terreno debaixo dos pés, de subir os degraus ouvindo o chao ranger um pouco como em Ansiao ou em Alferrarede, de ter um quarto esconso com janelas de sótao a ver o céu. Gosto quando fica noite, e silencio, de percorrer a casa inteira, a certificar-me de que todas as portas e janelas ficaram fechadas.


Numa nota menos positiva, nao sei onde pendurar um espelho. Quem aqui instalou tres casas de banho deixou caprichosamente um lavatório num canto, outro em frente a uma janela e um último junto ao plano inclinado do telhado (esta dificuldade talvez desculpe um pouco o aspecto da família-alema-de-leste que aqui viva).

Numa nota menos positiva e mais alarmante, o jardim está vivo. A relva cresce parece que está endemoninhada e agora com isto do Outono vai das folhas dum arbusto que temos ali arrumado num canto começarem todas a cair para o chao e a espalharem-se com o vento. Se isto continua nao sei que faça, provavelmente tenho que chamar a Protecçao Civil.

ShroKates



Afinal parece que nao se demite. Pode ser um pantano, mas é o xeu pantano!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Postal No2


Nanteviqque, 26 de Agosto de 2009

Caros amigos,

Cá vai, provavelmente para chegar atrasado, um postalzinho à moda antiga, mostrando uma vista do centro de Nanteviqque, para onde voltei sozinho e a muito custo, depois daqueles pouquíssimos dias de férias com as meninas em Sesimbra.

Muito de vós poderao pensar que agora é que começaram as minhas verdadeiras férias, e eu também pensei, mas a verdade é que, ao fim de dois ou tres dias, a coisa se torna aborrecida de morte. Nada melhor, portanto, do que manter-me ocupado: durante a semana no atelier, durante o fim-de-semana aqui por casa.

Uma das coisas que estava nos meus planos desde há meses era pintar as ombreiras da porta da casa de banho, esfoladas pelos topos de uma barra fixa que ali tinha montado (é verdade, nao fui lá muito esperto) para a Sara treinar elevaçoes.

Eu, até por obrigaçao profissional, tenho um certo conhecimento destas coisas da bricolage. Em termos práticos, porém, nao sou muito melhor do que um certo Professor Catedrático da Universidade de Coimbra, com doutoramento em Teoria Geral do Direito da Personalidade. Mesmo assim, atirei-me ao trabalho.

No sábado de manha, visitei pela primeira vez uma dessas lojas, que aqui sao muitas e gigantescas, inteiramente dedicadas ao DIY: le-se [di-ai-uai] e significa Do It Yourself. O DIY (já desconfiava, mas pude comprovar lá dentro) move multidoes. Nao é preciso ser o A.B., para perceber que isso tem raízes histórico-culturais e também razoes sócio-económicas: a tradiçao da jardinagem, o movimento de Arts and Crafts, o culto do tempo livre produtivo, o custo proibitivo da mao de obra qualificada, entre outros factores, contribuiram para a dimensao do fenómeno.

Eu confesso que também gostei de perder tempo naqueles corredores, até ter a certeza de que trazia a tinta adequada e o diluente próprio, a melhor das trinchas mais baratas, a fita suficiente, a lixa de grao certo. Aproveitei para ver coisas que nao preciso e outras que nem sequer percebo para que servem ou como funcionam. Gramei de vestir as roupas velhas e de assobiar.

O trabalho ficou aceitável. Ninguém percebe que houve ali nova demao e, além disso, nao deixei pingos brancos na alcatifa do corredor (aqui o The Guardian é tao grande como o Expresso). O que eu nao sabia era que aquilo era apenas o começo; por estas bandas, muito mais do que um hobby, o DIY é uma filosofia de vida, e estende-se para lá de tudo o que eu podia imaginar.

Vejam só que no dia seguinte me caiu uma coroa provisória (desculpem entrar em miudezas) e o meu irmao avisou logo que nao vinha cá para me colar isto. Depois de falar com um colega que trabalha em Londres, disse-me que por uma consulta regular ia esperar meses e que duma urgencia provavelmente seria corrido a pontapé. Mas aconselhou-me a passar na farmácia, porque era natural que lá vendessem o cimento próprio e talvez eu conseguisse fazer a coisa sozinho.

Ainda sem saber se estava a ser gozado, fui ver. Era verdade. Chama-se RECAPIT, vem numa embalagem verde com um potezinho e um pincel minúsculos, custa £4.00 e traz atrás as indicaçoes: lave o dente; raspe cuidadosamente todos os restos de cimento da coroa e verifique o seu posicionamento; lave, enxague e seque; passe uma fina camada homogénea de cola no interior da coroa; humedeça o dente; coloque a coroa e trinque com força repetidamente; se sentir dor retire e repita o procedimento, ou consulte o seu dentista; se se sentir confortável mantenha a pressao durante cinco minutos; limpe o excesso de cola à volta; deixe secar e pode comer ao fim de uma hora.

Alucinante, nao? Mas resultou. Entretanto, por curiosidade (e arriscando talvez um pouco os vossos empregos) deixem-me só acrescentar que na prateleira da farmácia estava outro produto do mesmo fabricante, destinado a preencher os buracos dos dentes cariados quando a massa do dentista cai. Vem numa embalagem laranja e chama-se REFILLIT. Já consigo imaginar as instruçoes: sente-se em frente ao espelho, com a cabeça ligeiramente inclinada para trás; abra bem a boca e aponte uma lanterna para o interior; segure a broca com a mao direita e cuidadosamente...

Bom. Saúde para todos, sao os melhores votos deste vosso amigo.

(assinatura ilegível)

sábado, 26 de setembro de 2009

Rescaldo

Pronto, andávamos curiosos e já ficámos a saber: há cerca de 36% de portugueses que nao leem o Capacete. Ou, pior, leem e nao seguem as orientaçoes...
Estou desanimado. Nao sei que vos diga, excepto que Nanteviqque é uma terra muito simpática, se alguém estiver a pensar pedir asilo político.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Hugh Laurie

Quem é fan daquele médico inteligente, casmurro, dedicado, sarcástico, charmoso, egoísta e coxo, chamado Dr. House, levanta o braço!
E quem se lembra daquele tipo alto, desengonçado e burro como uma porta, que fazia de rei e de jovem tenente no Black Adder, levanta o outro!
Ah, pois é...

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Verbum dei

Julgo que já contei que aqui o diácono local se chama Mascarenhas: o apelido é portugues, mas basta olhar para ele para perceber que veio de Goa. A pele castanha escura contrasta com o cabelo e a barba grisalhos, próprios da idade; no altar, com os paramentos vestidos, tem um ar asceta e profético (um pouco ao contrário do pároco, que é um irlandes bonacheirao). Por isso, quando se aproxima do púlpito para uma das suas homilias meticulosamente preparadas, toda a gente faz silencio e presta atençao.

No domingo passado, começou assim: «O meu pai, embora falasse portugues fluentemente, nunca mo ensinou. Só lembro, e creio que ainda consigo reproduzir, uma frase simples, mas plena de significado, que ele repetiu durante toda a sua vida, e com especial insistencia nos ultimos anos.». Neste ponto, tinha a assembleia em suspenso. Muita gente daqui passa férias em Portugal, talvez alguns acreditassem que iam conseguir entender; a Ana e eu estávamos mortos de curiosidade.

Entao ele realmente disse qualquer coisa, mas ninguém percebeu nada: nem os ingleses nem nós. Apercebendo-se de que nao tinha sido compreendido, nem sequer pelos portugueses na terceira fila, fitou-nos directamente e fez outra tentativa. Desta vez falou muito devagar, separando todas as sílabas, e nós, estupefactos, ouvimos distintamente : «POR-A-MOR-DE-DEUS, NAO-VO-TEM-NO-SÓ-CRA-TES!».